Para escritoras

Sobre a narrativa em primeira pessoa

Olá, colegas da escrita! Hoje venho para iniciar uma série de publicações sobre pessoas em narrativa e começarei pela preferida das autoras romances contemporâneos no Brasil, a primeira.

Em primeiro lugar (sem qualquer trocadilho aqui!), precisamos entender que a narrativa em primeira, segunda ou terceira pessoas referem-se ao ponto de vista (PDV), ou point of view (POV) em inglês. Ponto de vista é, basicamente,

o termo usado por escritores para a perspectiva pela qual cada um conta a sua história. (The Write Practice).

Para Jerry Jenkins, o PDV representa duas coisas importantes na história: a voz que o autor escolhe para contar a história e a quem pertence essa voz.

Aqui falaremos da escolha pelo PDV em primeira pessoa, ou seja, o ponto de vista que estabelece como voz narrativa a de um personagem – o seu personagem principal. O site Masterclass entende que uma das maiores vantagens em se utilizar a narrativa em primeira pessoa está na de colocar a leitora e a narradora em contato direto, produzindo intimidade entre elas.

Outras vantagens elencadas pelo site para a primeira pessoa são:

  1. Cria laços emocionais com a leitora;
  2. Faz com que a narradora e a leitora pareçam estar engajadas em uma conversa durante a narrativa;
  3. É mais subjetiva e, por isso, nos faz compreender melhor o personagem-narrador;
  4. Torna a narrativa pouco confiável, focando nas respostas emocionais do personagem-narrador para cada evento.

Jenkins recomenda que escritoras iniciantes utilizem a primeira pessoa porque ela é mais limitada (ao ponto de vista de apenas um personagem) e, com isso, acaba se tornando menos complexa.

Mas essa limitação também precisa ser vista com cuidado. Se a escritora decide-se pela primeira pessoa, deve compreender que ela reduz significativamente a percepção dos eventos ao que pode aquela determinada personagem ter ciência.

Sua narradora precisa estar em toda e cada cena, e você não pode incluir detalhes que ela não saiba. Cada evento na história é apresentado pelo olhar da narradora e interpretado apenas por sua compreensão dos fatos. (Writer’s Edit)

Um erro comum, porém evitável, é inserir na narrativa percepções oniscientes, que uma personagem específica não poderia saber, como o sentimento de outra personagem ou um evento que aconteceu em um lugar fora daquele onde a cena se desenrola.

É possível ampliar o universo da narrativa utilizando-se de vários pontos de vista durante a construção da história, porém isso não deve ser feito de qualquer jeito. Como falei no post que tratou de pontos de vista desnecessários, se a escritora precisa variar de personagem o tempo todo para que a história seja contada, talvez a escolha da narrativa esteja equivocada e seja mais recomendada a terceira pessoa onisciente.

Não se recomenda variar de ponto de vista dentro de uma mesma cena. Jerry Jenkins sugere que essa variação seja tão pequena que não aconteça nem no mesmo livro! Eu costumo variar eventualmente a narrativa quando estou produzindo histórias em primeira pessoa, mas, por regra, mantenho cada capítulo dentro de um ponto de vista exclusivo.

Outra questão relevante para a narrativa em primeira pessoa está em se estabelecer um tempo verbal para que a história seja contada. Passado ou presente? Não existe uma melhor escolha desde que a escritora decida-se por um deles e mantenha-se nele até o final do livro. A narrativa não pode variar entre tempos no presente e passado pois isso representa uma falha de estrutura.

Em Taylor, um de meus romances contemporâneos, optei pela narrativa em primeira pessoa no presente:

Ele me ignora. Continua segurando minhas mãos. O estádio está parado. A câmera nos focaliza, mas não há som. Estamos de novo no telão, mas por outras razões. O árbitro apita e diz que vai reiniciar a partida, só que os jogadores também estão paralisados.
Meus amigos sensatos me colocam no prumo até o final da manhã. É domingo, mas Liam me liga dizendo que não poderá me pegar cedo.

Vejam que todos os verbos indicam uma ação que está acontecendo, e durante todo o livro, que é narrado preferencialmente pelo PDV da mocinha (Brenda), as ações acontecem no tempo presente.

Já em Jogos de Adultos optei pela primeira pessoa no passado:

Segurei a mão esquerda de James e olhei as horas em seu relógio de pulso. Passavam das vinte e trinta e sim, meu estômago roncava. Ele se levantou e me segurou pela mão, levando-me com ele até o andar de baixo.
Não foi o sol que me acordou no dia seguinte, mas o bafo quente de Roscoe. O cão estava com as duas patas apoiadas no colchão, me encarando com a língua para fora, aparentemente cansado.

A decisão não importou para a qualidade da narrativa, porém, uma vez tomada, eu, como autora, deveria manter-me ao tempo verbal escolhido.

Nem todo mundo, no entanto, concorda com a decisão pela primeira pessoa. Alexander Steele entende que ela está superestimada e utilizada em excesso e que as autoras deveriam reconsiderar iniciando uma nova história utilizando-se da narrativa em primeira pessoa. Para ele, por mais proximidade que este ponto de vista proporcione entre leitoras e personagens, a narrativa em terceira pessoa fornece mais amplitude e liberdade para a história.

E você, gosta da narrativa em primeira pessoa? Qual é a sua escolha quando produz seus textos?

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